Friday, March 30, 2012

Going Down




Tenho pensado nesse post há algum tempo. Tanto tempo que quase desisto de escrevê-lo.
Tirei essa foto no meu primeiro mês aqui e não consegui parar de pensar no ato de descer, de ir para aquele porão escuro da casa que ninguém gosta muito de lembrar.
Não estou falando aqui no sentido de baixo astral, melancolia e depressão, mas no sentido de profundidade e intensidade.
Um discurso de sucesso sempre traz à tona a subida da vida, e a tendência natural de um sonho comum é geralmente pensar em subir, em chegar literalmente ao lugar mais alto, independente das estruturas que se têm para permanecer lá.
Nesses dias tenho conseguido enxergar a importância da descida em um processo anterior à subida. No post anterior falei um pouco sobre ser quem achamos que somos em um lugar diferente, onde a referência e o olhar do outro sobre você se resume em um ponto de interrogação.
No processo de alugar um apartamento, procurar um trabalho e, claro, conhecer pessoas, não existem mais tantas indicações, referências de alguém que te conhece e sabe de onde vem, o que você fez ou faz... É aí então que você passa a se olhar e buscar suas estruturas, seus valores, sua consciência. Começa a descer os degraus pra sair da superfície, pra enterrar o ego que só sobrevive se inflado todos os dias. Nesse caminho, começa a surgir um pouco do que eu chamo de liberdade de ser e não precisar parecer. Liberdade de tomar decisões e entender que nossa relação direta com Deus nos revelará a autenticidade de cada ação e motivação. Aprender que não são os comentários, críticas e elogios alheios que nos fazem ser o que somos, mas sim o que em meio à toda a falação, verdadeiramente existe em nós.
Engraçado pensar que cada área dessa cidade, seja o Brooklyn, Bronx, Queens ou Manhattan, é ligada por baixo da terra, pelo que chamamos de metrô... Esse lugar que conscientemente ou não, nos desconecta da superfície e nos une como seres iguais no sentido de valor, mas tão diferentes no sentido de espécie e identidade...
Desço as tais escadas pra baixo da terra todos os dias e sinto uma paz. Paz de estar tão misturada e ao mesmo tempo tão separada da multidão.
Vale dizer que a idéia de sair viajando e aproveitando o que o mundo proporciona não é o romance que todos imaginam acompanhados de uma trilha-sonora incrível. Pode até parecer um salto na vida, mas tenho percebido aqui que esse salto não é daqueles que só passam pra outra fase, ou que pulam obstáculos e passam por cima de abismos como no mundo do super mário. Esse salto, por vezes, é dado no escuro... o que eu particularmente chamo de fé.
Engraçado relacionar a palavra fé com algo escuro, mas o livro de Hebreus define a Fé pela certeza das coisas que se esperam e pela prova das coisas que não se vêem. (Hb 11:1)
Não ver algo, mas prosseguir acreditando que mais à frente o algo acontecerá é muitas vezes como andar de olhos fechados, mas de mãos dadas com o Condutor dos caminhos desconhecidos por mim, mas tão planejados por Ele.

"Para onde me irei do teu Espírito? Para onde fugirei da sua face?
Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer nas profundezas a minha cama, tu ali também estás.
Se tomas as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, ainda ali a tua mão me guiará.
Se eu disser: Decerto que as trevas me encobrirão, e a noite será luz a roda de mim, nem ainda as trevas são escuras para ti; a noite resplandece como o dia, pois as trevas e a luz são para Ti a mesma coisa." (Salmo 139: 7-12)

 

2 comments:

  1. Robertinha,
    Lendo seu texto, pensei no mistério da encarnação divina, como o paradigma mais intenso que existe sobre a processo de humilhação (descida) e glorificação (subida). Ele primeiro desceu, veio ao mundo como um homem podre, nasceu numa manjedoura, terminou pendurado na cruz, mas depois foi glorificado pelo Pai. Ele desceu, mas depois subiu. Como você disse, o discurso de prosperidade quer a glorificação sem passar pelos processos de humilhação, e assim, perdem toda conexão com o Logos Encarnado, o verbo da Vida.
    Deus esteja contigo em cada passo que você ser.
    Bjs,
    Dani

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  2. É assim que me sinto perto de mim, quando leio textos que mexem comigo, que me confrotam, que me incomodam. Esse texto fez lembrar um pouco do que sou independente de opiniões. E o que eu sou precisa ser melhorado muito, preciso descer muitas escadas, preciso entender melhor as conexões e andar mais de olhos fechados e mãos dadas com o Condutor.
    Estou amando o blog.
    Um beijo.
    Mi

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