Thursday, August 29, 2013

A Vida Escondida do Fazer.


                                    Foto: Roberta Cajado. Salzburg, Austria.



Mais um devaneio.
Comecei daquele jeito, me arrastando pra traduzir um pouco do subjetivo que me rodeia.
Ando pensando demasiadamente sobre o 'fazer', que desdobrado em raciocínios fugazes me faz pensar em produtividade, verdade e aceitação. Palavras que conversadas entre si não parecem conectar-se.
Escrevo, mesmo assim, em trechos desordenados que anseiam encontrar refúgio na casa do sentido.

Salzburg andou mexendo comigo.

Vejo, todos os dias, um punhado de tempo livre.
Uma porção de vida pra ser vivida, de hora em hora.
O bom seria se eu não pensasse tanto. Acho que viveria a vida mais acordada.
Nos últimos dias, essa vida que se passa mais dentro do que fora, têm vagueado entre ideais de produtividade contínua. Contínua e sem disciplina.

Ler, escrever, acordar.
Apagar, refazer, colar.
Dormir, fazer sonhar.
Esconder, entender, acalmar.
Orar.

Palavras e processos que significam um caminho sem sentido, mas entendido.
Como vejo o tempo de produção, como dito esse termo à mim mesma?
Como encontro com Deus em meio à desordem descabida dos por quês?

Essa desordem parece vir da preocupação com o respaldo externo.
Apoio de quem pra quê?
Leio um verso que diz: “(...) a vossa vida está escondida com Cristo”. Ah.
Quanta coisa isso quer dizer? Muita coisa.
Medito.

O papel do escondido não é o de ficar evidente, não é o de ser entendido pelo mundo e muito menos o de ser aceito por ele.
Penso que esconder, nesse contexto, não exclui o fazer. Instiga-o.
Porque produzir aos olhos de ninguém vira desafio. Então torna-se o ‘fazer’ pelo fazer. Sem recompensa nem reconhecimento. 
É evidente que resultados e críticas ficam a cargo do tempo e de seu Rei, mas até lá segue-se o fluxo, inspirado na Verdade e cercado da aceitação. 
Aceitação de quem se é, de onde se encontra.

Ah, a motivação... é ela quem desmascara tantos porquês.
E é aí, só aí que a inquietação e a futilidade da 'vida aparecida' perdem a força.
Fazer pra quê é a questão que segue, ao fim, o Fazer pra quem?

Penso que a pergunta está a caminho de seu abrigo.
Porque no fazer, à luz da sabedoria Daquele que nos guia, existe sentido. 
Existe verdade no tempo que se gasta, no escondido da vida produzida por Ele.

Monday, August 12, 2013

Tradições Inacabadas




Casei em Novembro do ano passado e não tive, como de costume, a chamada lua de mel. Coisa que pros amantes da tradição é indispensável após a tradicional cerimônia entre duas pessoas que escolheram viver juntas. Confesso que por muito tempo não consegui viver sem elas, as tradições, e a história que eu mesma inventava do meu futuro tinha sempre uma delas no meio.
Em meados de Maio deste ano, meu marido foi selecionado para participar de uma residência em uma instituição de arte em Salzburgo (Áustria). Com a maioria das despesas pagas pela tal instituição, decidimos então que seria um bom momento pra sair pela tal 'lua de mel'. 

Aterrissamos em Viena (parada obrigatória) na quinta-feira a noite sem programar nada, mas querendo ver tudo, sem deixar nada pra trás. É aí que sempre me pego em confusão... Por que tanto desespero em engolir paisagens, correr por ruas que nem se sabe o nome, voar por museus sem parar e no final ter um amontoado de suvenires, catálogos e fotos mal tiradas? Fora a mania de reproduzir imageticamente as mesmas cenas, nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas.
Não me entenda mal pois não estou, nem de longe, dizendo que não cumpro e me permito viver esses clichês, e mesmo quando realmente não o faço, exijo de mim mesma uma certa explicação.

A questão é que nessa viagem quero tentar fazer diferente, quebrar o que talvez esteja imposto dentro de mim e trazê-lo pra fora. Fazer das tradições meras coincidências, deixá-las pela metade e somente segui-las quando a mão de Deus me levar, assim como quem não quer nada.
No último sábado fomos ver algumas obras de Klimt, artista que faz brilhar meus olhos desde a infância. O museu tinha muitos cômodos e algumas fases da história da arte que, pra dizer a verdade, mesmo que com grande sentimento de culpa, passei batido e assim segui meu passeio inacabado pelas artes. Engraçado como essa culpa de não chegar ao final sempre persiste, engraçado como o final das coisas geralmente nem é tão bom como o começo ou o meio delas... mas enfim, continuemos.
Finalmente cheguei ao espaço do amado Gustav Klimt, e depois de alguns longos minutos encantada em cada obra, parei em frente ao retrato de Johanna Staude (o da foto acima), pintado pelo artista em 1917. Logo abaixo do título, o detalhe mais importante da obra dizia: “Unvollendet”, do alemão, inacabado.

Monday, August 5, 2013

Em dias de chuva a gente pensa demais.




Foto: Roberta Cajado



Pensa demais e as vezes faz de menos. Nunca entendi o ritmo  de um dia espaçoso. 
É o dia em que mais perco tempo.
Tem espaço pra tanta coisa, que como numa pequena mentira digo pra mim mesma: ‘vai sobrar muito espaço, melhor deixar pro dia em que tudo tiver mais apertado, assim o anseio e a pressa se encarregam de colocar cada coisa no seu lugar.

Nesse dia de hoje (há dois meses atrás), chuvoso, resolvi limpar a casa e abrir as duas caixas que sobraram da mudança. Pois é, mudamos, eu e meu marido, ha quase uma semana atrás para enfim um canto com mais cara de casa.

Na minha arrumação me pego pensando que queria que cada micro objeto encontrasse seu lugar para ser guardado, e quando eu digo “seu lugar” significa que não gostaria de ter um lugar pra muitos objetos.

Aí penso na vida – sempre que arrumo a casa faço umas comparações estranhas – Penso que desde que mudei pra cá tenho essa constante sensação de achar um lugar pra cada sentimento ou questão. Depois penso que não é nada disso, que preciso mesmo é continuar vivendo, mas aí penso no propósito. Penso em eternidade, penso que tudo isso aqui é muito pouco, que acaba, que é tudo vaidade. Só aí então começo uma conversa com Deus, e quando começo a conversar, o tempo muda. Não o tempo de fora, mas o tempo de dentro.
É uma das coisas boas que existem, por um momento ter a sensação de ser revestida de algo que não é daqui, que eu nem sei explicar.